Voltou o Cabaré!

Cabaré, palavra curta que quando projetada sonoramente se concretiza por meio de imagens que temos de casas de festas que abarcam em seu conceito ações poéticas de expressões artísticas diversificadas: teatro, dança, música, circo, literatura. Cabarés atravessaram a história, propiciando entretenimento ao seu público ao mesmo tempo em que abria espaço para artistas apresentarem sua arte.

Porém, sempre que pronuncio “Cabaré” me recordo de tudo que li sobre o movimento Dadaísta. Aflorado na Alemanha, por volta de 1916, sob liderança de Hugo Ball, o dadaísmo, assim como outros movimentos, investiu em ações que contestavam tanto a velha ordem da pintura e escultura, quanto a valores e comportamentos impostos pela sociedade de sua época.

 

Sediado no Cabaret Voltaire, o Dadá abria suas portas para artistas jovens interessados em contribuir de alguma maneira com a proposta inicial da casa: apresentações diárias de performances artísticas e leituras de obras que beiravam a loucura, o caos e a sátira, possuindo um caráter de improviso e espontaneidade.

Ao mesmo tempo, pesquisando mais profundamente sobre esse movimento, Elger (2004:06) nos diz: “O dadaísmo não era exclusivamente um movimento artístico, literário, musical ou filosófico. Na realidade, eram todos eles. [...] Independentemente dos inúmeros manifestos escritos pelos dadaístas, não havia um grupo bem organizado por trás do movimento. No entanto, havia em todas as cidades e vilas os que atuavam segundo o seu porta-voz. Eles forneciam uma visão aos seus inúmeros simpatizantes [...]”.

A partir dessa colocação, fico cá tentada a fazer algumas reflexões e traçar, a posteriori, um breve paralelo que já se esboça na fala do autor: sim, os dadaístas se organizavam em rede. Conscientemente ou não, havia sim uma forma organizacional e uma sistematização de dados que os dadaístas desenvolveram para mapear artistas, filósofos, músicos, literatos, entre outros simpatizantes. Nesse sentido, ao ler: “[...] havia em todas as cidades e vilas os que atuavam segundo o seu porta-voz. Eles forneciam uma visão aos seus inúmeros simpatizantes [...]”, impossível não pensar nessa articulação como uma rede, pois o movimento dadaísta saiu do pequeno circulo alemão, atingindo Paris e Nova Iorque.

A proposta do Cabaré agrega em si uma infinidade de sentidos e épocas, no qual se fez presente e fundamental para manter viva, até os dias de hoje, a cultura de um palco aberto para os artistas. Mas, ao mesmo tempo, cria um espaço propicio para a articulação política, para o debate sobre a realidade de cada cidade, para a aproximação de novos agentes culturais locais ao movimento.

 

 

Acredito que seja por essa veia de articulação e os possíveis desdobramentos que o Palco Fora do Eixo, durante a Imersão realizada em janeiro de 2011, elaborou a proposta de um evento de artes integradas dentro do Circuito Fora do Eixo denominado Cabaré Fora do Eixo. A proposta desse evento a ser realizado trimestralmente, pelos coletivos participantes do Palco Fora do Eixo, é buscar integrar em um único espetáculo diferentes linguagens artísticas propiciando ao público de cada localidade uma vivência que contempla o entretenimento e o fomento à cena artística.

A proposta da realização do Cabaré, enquanto espaço dinâmico e oportuno para trocas entre artistas e público vem a fortalecer essa nova frente de linguagem do Circuito Fora do Eixo e desafiar os demais coletivos integrantes da rede a trazer as coisas ao alcance, de modo que possam ser tocadas.

Referencial Bibliografico
ELGER, Dietmar. Dadaísmo. SP: Tachen, 2004.

 

Cláudia Schulz

@PalcoForadoEixo

Ainda bem quieto aqui.sas

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